segunda-feira, 20 de julho de 2015

O pesadelo do Tio Arlindo


O tio Arlindo acordou sobressaltado: parecera-lhe o estrondo de uma porta! Àquela hora, isso só podia significar uma coisa: estava a ser assaltado. Levantou-se devagarinho, tentando atenuar os rangidos da cama. Calçou os chinelos e pegou na caçadeira. Pé ante pé, avançou pelo corredor. Silêncio. Será que os ladrões estavam à espera de o apanhar desprevenido? De subido, um clarão iluminou a janela. Segundos depois, novo estampido. Arlindo suspirou de alívio. Pura ilusão: era apenas uma trovoada.

[Participação no Desafio 94 do blogue «77 palavras», de Margarida Fonseca Santos]

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Garotices



O bando reunia-se no descampado atrás da escola. Pedro era o mais alto. Vítor, macilento e enfezado, era tido como muito esperto. Por seu lado, Paulo era um fedelho manhoso, que viera de outro bairro. O restante punhado de cachopos andava às ordens do trio.
Apesar de Pedro ser «o chefe», era Vítor quem tomava as decisões mais importantes. Paulo, a quem uma parte dos elementos do grupo obedecia directamente, não escondia os ciúmes…
Embora passassem a maior parte do tempo a «reinar», a sua ocupação preferida era, nos intervalos e no final das aulas, extorquir os restantes colegas. E não apenas os lanches. Dinheiro, roupas e objectos de marca, tudo o que viesse à rede era peixe. Uns encontrões e umas ameaças eram o suficiente para que as suas vítimas não dessem com a língua nos dentes.
Num dia de Verão, já as aulas tinham terminado, depois de umas braçadas no rio, decidiram ir jogar futebol. Pedro levava a bola que o avô lhe oferecera pelos anos, mas como de costume, foi Vítor quem começou a formar as equipas. Dessa vez, Pedro discordou das escolhas. Ele é que mandava e, ainda para mais, a bola era sua. Depois de uma azeda troca de palavras, Vítor decidiu desvincular-se do grupo. Pedro gritou-lhe:
- Se te vais embora, nunca mais voltas a andar connosco!
- Quero lá saber. Estou farto de te aturar. – disse Vítor, virando as costas.
Paulo estava exultante. Sempre invejara a influência do outro e agora tinha o caminho livre. Só que a sua alegria foi sol de pouca dura. Pedro chamou uma loirita arrapazada, por quem andava embeiçado.
- A partir de hoje, és o meu braço direito. – disse-lhe. – Escolhe tu.
Foi a gota de água. Sentindo-se preterido «por causa de uma gaja», Paulo ameaçou ir-se também.
- Mau! Não vais nada embora. Tu é que pediste para entrar no grupo. Só sais quando eu te deixar.
- Vou eu e vão os meus amigos!
- Isso é que era bom. Não vais tu nem vai ninguém. Eu é que mando. Atrevam-se e vão ver como elas vos mordem… – berrou Pedro.
Mas Paulo e os colegas ignoraram-no e foram mesmo embora. A pouco e pouco, os restantes garotos acabaram também por desmobilizar. Nem a loirita ficou.
Amuado, Pedro sentou-se na bola, com a cara entre as mãos e os cotovelos apoiados nos joelhos. Dizem até que chorou.
Pedro cresceu e acabou por se tornar o primeiro-ministro de um belo país à beira-mar plantado. Numa certa tarde de Verão, pareceu-lhe, amargamente, estar a reviver aquele episódio.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Elogio da Greve Mansa



A greve é um direito constitucional
Desde que não seja no meu quintal
E não belisque a conveniência geral

Não afecte a produção das farinhas
Nem ponha em causa a criação de galinhas
Nem traumatize as pobres criancinhas

O melhor seria ouvir os poderes instalados
E fazê-la no dia e hora mais adequados
Para não haver prejudicados

Talvez ao domingo depois do sermão
No feriado da Imaculada Conceição
Ou dia de São Nunca (que é santo pagão)

Nos restantes dias a greve já cansa
Agitando a louca bandeira da esperança
Que a melhor das greves é a greve mansa

A culpa


a culpa
da queda do investimento nacional
é da chuva

a culpa
do descalabro da dívida pública
é do nevoeiro

a culpa
da derrapagem orçamental
é do granizo

a culpa
das políticas de austeridade
é do vento suão

a culpa
do aumento dos impostos
é das marés vivas

a culpa
dos cortes nas pensões
é da trovoada



e a culpa
de termos de aturar estes anormais
que nos andam a lixar a vida
é das profissionais do sexo

já que os deram à luz!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O massacre do OE13






- Bzzz… Ai ‘miga, o que é aquilo que ali vem?
- Foge, ‘miga! Ele quer dar cabo de nós.
A mais gorda das melgas, no entanto, não escapa ao grosso maço de papel. A outra, escanzelada, mas ágil, lamenta-se:
- Coitadinha… Bzzz… Eu bem lhe disse que sugar um vampiro era muito arriscado...
E foge dali, aproveitando a confusão de folhas pelo ar. Na última que chega ao chão, pode ler-se: «Orçamento de Estado para 2013».

Resposta ao desafio nº 24 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Artesanato trágico




Era um leitão de cortiça com uma rolha por nariz. Estava na montra, entre um almofariz de pedra e um despertador em forma de bola de ténis. Decidi oferecê-lo ao glutão do Alfredo. Entrámos na loja, mas uma vespa enfurecida atirou-se a mim. Tive de me defender com um rolo de papel que estava ali à mão. Um golpe mal calculado e o bácoro desfez-se em pedaços. Agora... vou ter de lhe oferecer um a sério. Assado.

Resposta ao desafio nº 23 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.


domingo, 16 de setembro de 2012

A marcha do futuro



Primeiro, pingaram algumas gotas dispersas, qual chuvisco de Verão. Gota a gota, o caudal engrossou, até se transformar numa torrente imparável. E a torrente fez-se rio, um rio de gente corajosa, ocupando as cidades.
Vieram novos e velhos, trazendo a força dos sonhos atraiçoados, uma réstia de esperança, um grito na garganta. Por isso, armaram-se apenas com palavras, algumas muito duras… porém verdadeiras. Encheram praças e avenidas, quebrando a letargia de um país adiado. Exigindo um futuro!

Resposta ao desafio nº 18 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

sábado, 1 de setembro de 2012

Maria não vai com as outras




Maria não vai com as outras, não.
Ela só vai onde a leva o coração.
Se a querem por companhia,
Que a esperem …ou que se vão.
Maria não pode ir agora,
Pois mergulhou nas ondas da paixão.

[Participação no desafio 23 da página «Escrita de Microficção». Tema: «À espera de Maria».]

O anel de Lena




Lena é uma jovem alegre e desinibida que adora roupas coloridas. O seu riso contagiante faz com que todos a estimem. Sabem que Lena perdeu o pai num acidente trágico e que, por isso, a mãe sofre de uma constante depressão. E que é a coragem, a alegria e o amor da filha que a mantêm viva…
No entanto, em segredo, Lena afaga o pequeno anel que o pai lhe deu e chora amargamente a sua ausência.

Resposta ao desafio nº 17 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

Blue moon


Desafiou-a a ir ter com ele ao alto do monte. À luz da segunda lua cheia de Agosto, renovariam os votos que tinham feito há anos atrás. Esperou toda a noite. A lua apareceu, Maria não.

[Participação no desafio 23 da página «Escrita de Microficção». Tema: «À espera de Maria».]  

O irresistível aroma da tarte de amora




Da janela entreaberta, desprendia-se um aroma irresistível. Pedro e Afonso largaram a bola e aproximaram-se, sorrateiros, do quintal da vizinha. Mal os pressentiu, o anafado gato amarelo bufou e esgueirou-se para cima de uma árvore.
Parados debaixo do parapeito, puseram-se à escuta, até se certificarem de que não havia ninguém na casa. Pedro ajoelhou-se, Afonso subiu e lançou a mão à bela tarte de amora. De repente, sentiu que alguém o puxava para dentro. Tinha sido apanhado!

Resposta ao desafio nº 17 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Castelo das Palavras


Castelo de Newschwanstein, na Baviera, Alemanha.
No Castelo das Palavras, havia salas onde se guardavam todos os tipos de palavras. A Sala das Palavras Macias tinha palavras como «peluche», «espuma» e «almofada», mas também «carícia», «beijo», «mãe» e outras do género. A Sala das Palavras Ancestrais tinha palavras como «mundo», «fonte» e «nascimento». A Sala das Palavras Magoadas tinha palavras como «ausência», «lágrima», «fome» ou «solidão». Mas havia também a Sala das Palavras Terríveis, onde se guardava a mais terrível de todas: «morte».

Resposta ao desafio nº 16 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos.

domingo, 19 de agosto de 2012

A saga do tio Arlindo - Aventura no café Paris


1. O tio Arlindo andava intrigado com a faina do Lopes. Ora entrava carregado de caixas, ora saía cheio de sacos. Pôs-se nas suas tamanquinhas e foi ao café Paris, investigar a coisa.
 
2. No café Paris, ele bem perguntou pelo Lopes. Que não, que ainda não tinha entrado lá naquele dia. Pasmado, o tio Arlindo coçava a cabeça. Estava a começar mal, aquela investigação.
 
3. Ao sair do café Paris, o tio Arlindo viu o vulto do Lopes abandonando a mercearia do Brites e entrando numa carrinha da Panrico. «Que estranho!», pensou. O mistério adensava-se.
 
4. No outro dia, o tio Arlindo chegou cedo ao café Paris. Lá estava a carrinha da Panrico, mas… o tal vulto não era o Lopes. O tio Arlindo percebeu então que tinha de passar a usar óculos.

[Participação no desafio 21 da página «Escrita de Microficção». Tema: « Investigação em Paris».]  

Homem de palha



Às vezes, no meio do campo, um homem de palha botava discurso às aves esquivas. Exaltava a solidez da sua morada permanente, com ampla vista sobre o mundo circundante. O pé bem fixo na terra tornava-o forte, temido, imune ao sobressalto das estações. Ali, onde estava, vigiava o próprio ciclo da vida e da morte. Arrogava-se, por isso, Senhor do Tempo.
Mas as aves não o ouviam. Bastava-lhes abrir as asas e o mundo era todo delas.

Resposta ao desafio nº 15 do blogue 77palavras.blogspot.pt de Margarida Fonseca Santos. Frase inicial retirada do «Romance da Raposa», de Aquilino Ribeiro. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O cão do faroleiro


Pertenciam ambos a mundos diferentes. E havia a diferença de idades: 14 e 41.
Conheceram-se na ilha Berlenga.
Caminhava ele na enseada deserta e ela provocou-o com uma chapada de água.
Um simples olhar deflagrou em amor súbito. Mas não podiam…
- Sou muito velho – disse ele –. Já tenho 14 anos.
- Eu ainda sou jovem – respondeu ela –. Tenho 41.
Ele ladrou e correu escarpa acima.
Ela bateu a grande barbatana e partiu mar adentro.

sábado, 21 de julho de 2012

Namoro efémero


Uma bola de Berlim apaixonou-se por um pastel de nata.
O namoro acabou na boca de uma banhista.

[Participação no desafio 17 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Desencontro amoroso à beira-mar».]

Receita da bola de Berlim: http://fofinhos-quentinhos.blogspot.pt/2010/06/bola-de-berlim.html
Receita do pastel de nata: http://asminhasreceitas.com/receita/pastel-nata

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Maresia



Tímida, fugiu a maresia, face às investidas do sol de Verão.

[Participação no desafio 17 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Desencontro amoroso à beira-mar».

A saga do tio Arlindo (7)



O tio Arlindo detestava praia… até ver a viúva em monoquini.

[Participação no desafio 17 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Desencontro amoroso à beira-mar».

Superstição!



Como não era supersticioso, aproveitou a promoção da Pensão Gato Preto. Só que as coisas não correram bem. Depois do nevoeiro lhe ter estragado o dia de praia, foi para o quarto. A cama rangia como cem demónios arrenegados. A luz do candeeiro piscava de forma sobrenatural. Inoperacional, a TV exibia apenas uma estranha «chuva miudinha». Resignou-se. Desligou tudo, deitou-se no tapete e dormiu como um anjo.
Que mais poderia esperar de uma sexta-feira 13? Era barata...!

 [Resposta ao desafio nº 13 do blogue 77palavras.blogspot.pt, da escritora Margarida Fonseca Santos.]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A partilha




Um cão e um gato bifaram uma bela posta de lombo assado.
«Agora, vamos manjá-la juntos», rosnou o cão. «Está bem, anda», bufou o gato, arrebatando o pitéu para cima de um telhado.

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».

A saga do tio Arlindo (6)



Querendo vingar-se da traição do outro, o tio Arlindo ligou para a viúva. Inventou: ele e o Lopes tinham sido amantes; soubera agora que tinha sida.
Só então deu pela asneira…

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]

domingo, 15 de julho de 2012

O lobo motard



Embrenhando-se cada vez mais na floresta, a rapariga do capuz vermelho gritava a plenos pulmões:
- Lobo, loooobo, onde estás? Não adianta esconderes-te. Eu encontro-te sempre…
Dissimulado atrás de um arbusto, o lobo fazia o que podia para se ocultar. Não lhe apetecia nada aturá-la. Mas ela, que já lhe conhecia as manhas, descobriu-o num instante.
- Eu não disse que te encontrava? Agora traz lá a mota e vamos dar uma volta até à Caparica…

A saga do tio Arlindo (5)



Ao tio Arlindo doía-lhe a traição do Lopes. Caíra na asneira de o apresentar à viúva a quem cortejava e o outro passou-lhe a perna. Acabara de os ver, a arrulhar, na tasca do espanhol.

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]

O pedido



Teve de emigrar, mas não pôde levar a mulher. Foi ter com o seu melhor amigo e deixou-a sob a sua protecção, pedindo-lhe que tratasse dela como se fosse sua.
O amigo levou o pedido à letra.

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]

Em tempo de guerra...



Regressado das manobras de campo, o capitão apanhou a mulher na cama com o seu melhor amigo. Pegou numa chibata e desancou-os. Furiosa, ela fez a ronda completa ao pelotão.

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]

sábado, 14 de julho de 2012

Decepção

Jean Veber - Les Lutteuses (pormenor)

A amizade entre a Gata Borralheira e a Bela Adormecida acabou no dia em que ambas descobriram que o príncipe era o mesmo.

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».]

O camelo o burro e a água


Ilustração de Merli (Brasil) para o livro infantil com o mesmo título.
Especialistas em meter água, foram corridos do zoo à mangueirada. O camelo foi para Massamá, borrifar o jardim e o burro foi para Tomar, regar a horta.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Discurso eleitoral



- Votem em mim - disse o lobo -. Chegámos a uma nova era. Lobos e ovelhas são agora amigos inseparáveis.
Embora desconfiadas, as ovelhas deixaram-se ir na conversa. Azar o delas.

[Participação no desafio 16 da página «Escrita de Microficção». Tema: «Amizade Traiçoeira».

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A dança das cadeiras


Veio o primeiro porco e sentou-se. Organizou o banquete a seu jeito, comeu quanto quis e aos restantes bichos deixou umas migalhas. O segundo, o terceiro e o quarto fizeram igual, bem como os que se lhe seguiram. Quando já não havia nem migalhas para distribuir, acusaram os outros bichos de viver acima das suas (deles) possibilidades...

terça-feira, 10 de julho de 2012

Arrependido


A Youth on His Knees in Front of a Lady - Konstantin Somov

Ajoelhado a seus pés, jurou que estava arrependido de se ter arrependido de namorar com ela. Lembrou que, quando a conhecera, achara que nunca ficaria arrependido de assumir esse compromisso. Afinal, não sabia porquê, tinha-se arrependido, e quanto a isso, não havia nada a fazer. Agora que estava arrependido de se ter arrependido, queria voltar para ela. Isto, se ela o perdoasse por se ter arrependido.
Confusa e perturbada com tais artifícios argumentativos, ela mandou-o à mãe.

[Resposta ao desafio nº 12 do blogue 77palavras.blogspot.pt, da escritora Margarida Fonseca Santos.]